2 de setembro de 2010

SENTIMENTALISMO

SENTIMENTALISMO

não me deixe aqui

O que a póle ensina é só a propósito
da vaidade

quero ouvir o som do trem passando
na beira de nossa casa
sentir o medo de nossas crianças
fugirem pro meio do mato

aprendi a viver a vida
com um jogo de memórias
guardei uns sorrisos ternos
uns olhares bravos, e o que mamãe dizia:
‘há quem usa a cabeça, quem use o coração...’
—por mais tempo que a gente perca, Amar não é loucura!

venha, segure em minhas mãos
(pois quem não sabe o que quer
não chega a lugar algum.)
ao amanhecer, vamos transformar
sonhos em lembranças.

Clayton Pires

31 de agosto de 2010

Sem sentido


Podia saber como ir

e ter por onde voltar

feito casa assombrada

fico aqui:    intacto.

Clayton Pires

Essa infantilidade que me persegue


Falo pouco do que na verdade sinto
é como se fosse abrir as jaulas de vidro
que se cabem aqui dentro

Escondendo segredos
riscando paredes com sangue
resguardando gritos
secando lágrimas
me puxando pra dentro

O que queria era encontrar um companhia
pra acordar bem cedo
com vontade de brincar de esconde-esconde
juntar parelelepídos 
e sentir frio na barriga
ao roubar-lhe um beijo doce
ao por do sol

Desculpe a intensidade dos meus olhos
é que sempre sonhei feito criança boba
não querendo acordar
mas morrendo de vontade
que tudo fosse realidade

é que sempre fui inconformado
como o tempo voa
e as coisas vão se ficando para trás

29 de agosto de 2010

Para renovar o encanto



preciso de flores que lembrem o céu
azuis, amarelas, alaranjadas.
preciso vê-las.

essas horas o toque nada diz.
a frieza da distância
só gera angústia.

eu que sempre fui estátua,
observo o espaço
onde a dor se guarda.

não quero palavras
(essas malditas vistas
um dia vão me matar)

essa ânsia de estar-se vazio
essa vontade de ser, existir
e ser querido.

queria um espelho
dois olhos, o encanto
e a segurança que o mundo
não é ilusão.

Clayton Pires 

28 de agosto de 2010

vês?

Quando Passas,
ainda passa
uma montanha Russa
aqui dentro.

De quem é a Culpa?
Não sabemos.

Eu só sei do efeito.

26 de agosto de 2010

Pelo sim e pelo não...

nessa madrugada
uma Gata manhosa
subiu no muro de casa
e ficou assanhando meu ouvido

Eu [Gato escaldado] peguei
umas palavras de chumbo
e atirei no rabo dela

...Não era assim que queria?


Clayton Pires

25 de agosto de 2010

Pacto


não é paixão

é instinto

essa vontade
de entrar
em sua pele

e fazer cobertor
pro meu espírito

(...frio)

Clayton Pires

20 de agosto de 2010

Quebra-cabeças


rua vazia

a mesma visão de sempre

em minhas mãos

palavras desordenadas

tudo que não entendo

sinto.

18 de agosto de 2010

Eu queria ser bom de prosa

Cara bom de prosa não mente. Eu tenho um amigo bom de Prosa. Ele só se dá bem. Vive a vida. Sim, ele é ‘O cara’. Me conta cada história engraçada. Fora saber quantas menininhas ele pegou por aí. Cara bom de prosa não diz que está apaixonado. Diz estar curtindo, e curte, e curte, e curte...enfim, ele é o cara. Só não sei como ser ele. Cara bom de prosa tem emprego bom. Pode ser vendedor de loja, pode trabalhar na TV, pode ser político, pode ser tudo! Só sei que ele sempre se dá bem.

Como sexta-feira passada. Foi pra balada, encheu a cara, pegou uma estrela, e dormiu pelado debaixo da Lua. Depois foi trabalhar no sábado com a cara amassada e uma ‘puta ressaca do cacete’. Mas tava feliz, todo arranhado, com roupa suja – dormi abraçado com um anjo no meio do mato, acredita?- Claro que acredito. Se não acreditasse, o que imaginaria? Que ele apanhou?Bem até pode ser. Mas ele não. ele é ‘O cara’. Sabe bem fugir duma briga. Aliás, ele é bom de briga. Me disse outro dia que bateu em três machões de uma vez só.

Ser bom de prosa é tudo. Sabe bem da vida dos outros. Conhece de tudo. Sabe o que é bom e o que é ruim. O engraçado é que ninguém é como ele. Sabe quando as coisas vão dar certo ou não. Sabe falar de astronomia, de mulher, de carro, de dinheiro, de viagem, de novela. Eu queria ser ‘O cara’. Mas sou poeta, não sei de nada. E a menina dos meus olhos não vê futuro em mim.

Clayton Pires

12 de agosto de 2010

Pousada

quando quer carinho
- te dou só um pouco- e basta

pois sei que você é que nem
passarinho

vem se enche e vaza

Clayton Pires

10 de agosto de 2010

Marcas que os olhos não deixam passar

quando duas almas entram em conflito
sofre aquela que guarda os motivos
num sorriso frágil

para não ferir a outra
na forma que não gostaria ser atacada


clayton pires

7 de agosto de 2010

Sou criança tola
Brincando de dizer verdades
Acreditando no encanto das aves
Me iludindo com meus próprios sonhos
Carregando erros, e culpas de um mundo todo.

29 de julho de 2010

O presente te surpreende

Paixão é vulcão
serpeteando estrelas cadentes
que passam
e apagam no horizonte

Amar é sono profundo
de quem madruga sonho e angústia
em cama de andarilhos

sabes o que sentes agora?

Anjos tem asas cor arco íris,
encantam a vista dos inocentes
debicam a paz desejada
e voam livres

Desprende, coração ferido;
aprende que a tortura
desmancha lembranças
e cega o seu caminho.

Clayton Pires

25 de julho de 2010

Me acostumei com essa brincadeira

procurei na manhãs
a paz dos pássaros
e da sua presença.

já devia ter dito do silêncio;
mas me perco nas palavras submersas
no vão dos olhos.

entreguei meu corpo
ao seu desejo
você resolve brincar e some?

mergulhei mares de estrelas
vasculhei rastros de sonhos
revisitei nossa primeira vista
cansado, voltei pro meu canto.

será proibido um querer tão intenso?
(solilóquio dos pensamentos)
enquanto se faz difícil
pego meus planos incertos
e me escondo.

depois volta com beijos bestas
compartilhando ausências
que já nem questiono tanto.

Clayton Pires

22 de julho de 2010

O cemitério é o melhor fetiche

Ainda que fosse tarde
e a lua fria
lá no céu, nos contemplasse

Eu te deitaria no telhado
dos gatos vadios
e com uma mordida em sua
tatuagem de cereja
ascenderia a chama

(deixando a lua, as flores
as velas, mortos de inveja)

Ouvindo sussurros de quem se afoga
em suor: 'Ah! acabe com essa sensação
que me devora!'
e nossos corpos em transe e delírio
se derreteriam na pedra de mármore

e só acordaria no outro dia
com tudo acabado
para dizer que não preciso mais
de tê-la em mim.

Clayton Pires

19 de julho de 2010

assim, juntinho

Eu só queria saber
de assim, sabe?

da gente vivendo bem juntinho
como se cabessemos num caixa
de fósforo

assim, sabe?
fogosos, sorridentes
dedilhando sonhos
descobrindo estrelas cadentes

Eu só queria a certeza
mas não agora, na hora certa!
à, de ser de todas as horas

assim, sabe?
perdidinho, estabanado, inocente
eu queria que cuidasse de mim
sabe? como queria tanto cuidar de ti

Eu queria roubar a lua, mudar a sua face
dar o seu brilho e guardá-la em todos os estados
assim, sabe? como se fosse mágico
como sentimos estar juntos, como mudamos o mundo

assim, juntinho, eu queria.

Clayton Pires

Eu ví

seu vestindinho
preto
balançando seus
quadris

(ela nem percebia
mas eu a ví!)

Ficava pulando quadrinhos
imaginários
no meio de praça
- despercebida

nem se importava
com as coisas a sua volta

(ela não sabia mas
isso era o que
mais me encantava)

Até os passarinhos
fizeram roda em sua volta
Para aumentar seu entusiasmo

Eu ví, por isso sorria
Ela talvez nem se importaria
em saber o que eu pensava.

17 de julho de 2010

Matem-no!

Matem este pobre coitado
que se diz " Clayton pires
o poeta das águas"
que na vida
nunca foi valorizado

Matem-no
de braços abertos
pro mundo

por carregar
em suas mãos
sacos de tristes
palavras roubadas
e confiar nas histórias forjadas
de supostas amantes (fracas)
que sempre usaram o tempo
para deixa-lo jogado de lado

Matem-no. Vos digo
Não por interesse:

com uma punhalada
pois o morto
como vítima da vida
Morre pra se tornar ídolo
(coisa que já não se vale mais nada)

Clayton Pires

Avisada foi

Fique com os burburinhos
da chuva
titubeando em seus ouvidos

Você já tem os embrulhos
de presentes,
os perfumes
as cartas velhas
e suas razões esquizofrênicas

não me cobre palavras gratuitas
nem elogios
nem conselhos ou consolo

já acabou a sintonia
acabou a melodia

Quem mandou desligar meu radinho?

Como fazer poesia?

É preciso viver
pra se ter algo.

É como uma caixa
de brinquedos e palavras:
Espalhe o não-dito
o espasmo e a dor
no meio da sala

Na verdade é alquimia:
Junte as verdades-meias
Cueca suja, roupa distorcida
Calça rasgada

Jogue no caldeirão e mexa
até formar caldo

Ou crie poesia de aprendiz:

criança recém-nascida,
no começo não fala
depois se descabe
com cada passo dado
da vida

se encanta e desarma.

Clayton Pires